"Um MIX de soluções para seu evento"     comercial@mixpalestras.com.br


Gustavo Loyola

São Paulo/SP
Veja o Perfil Completo

Gustavo Loyola

Economista. Graduado pela UnB, Doutor em Economia pela FGV e ex-presidente do Banco Central do Brasil, cargo que ocupou em 2 períodos distintos.


Vídeos



Artigos


"Equilíbrio macroeconômico sob ameaça"

"Equilíbrio macroeconômico sob ameaça"


Os indicadores de atividade e a confiança de empresários e consumidores caracterizam uma conjuntura favorável para a economia brasileira no curto prazo, mantendo-se a trajetória de queda do desemprego que vem sendo observada desde a passagem do impacto mais forte da crise financeira internacional, no final de 2008 e no início de 2009.

Não obstante tal clima otimista, a economia vive um momento particularmente decisivo no que concerne à sustentação da trajetória de crescimento no médio prazo. Concretamente, os riscos de o país sofrer uma "parada súbita" no crescimento, pelos efeitos negativos da aceleração inflacionária, mantêm-se elevados, haja vista a presença de desequilíbrio entre oferta e demanda ainda não corrigido plenamente pelas políticas macroeconômicas praticadas pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central.

Em relação ao ano passado, é inegável que está havendo algum grau de desaceleração da atividade econômica, como indicam os dados recentes de produção industrial, oferta de crédito e vendas no varejo, entre outros. A moderação na atividade é fruto, em parte, do aumento acumulado dos juros básicos pelo Banco Central e da adoção das medidas de controle de crédito ("macro prudencial"). Mas a própria aceleração inflacionária, ao corroer o rendimento real dos trabalhadores, está também contribuindo para moderar o crescimento da demanda até aqui.

Contudo, as evidências continuam indicando que a demanda agregada segue aquecida e que ainda se faz necessário continuar o ajuste da taxa básica de juros nos próximos meses, mesmo diante da perspectiva quase certa de trégua nos índices de inflação nos próximos três meses. De fato, grande parte dos fatores de desaceleração inflacionária entre junho e agosto são temporários e sazonais, como é o caso da queda do preço do etanol e de alguns alimentos, como carnes e grãos. A subida do índice de difusão e das medidas de núcleo de inflação, nos dados mais recentes que indicam queda do IPCA, corrobora a percepção de que se está ainda diante de um arrefecimento pontual e temporário das pressões inflacionárias.

Além disso, o segundo semestre deve observar uma forte pressão de aumentos reais de salários, em razão da concentração neste período de dissídios de importantes categorias de trabalhadores, como bancários, metalúrgicos e petroleiros, entre outras. Não bastasse isso, logo no início de 2012 teremos as pressões derivadas do turbinado aumento do salário-mínimo previsto pela regra em vigor, cujo percentual deve ficar em torno dos 14% nominais.

Nesse contexto, não deve haver hesitação por parte das autoridades econômicas no uso das medidas adequadas de política para o controle da demanda agregada, fugindo da tentação do experimentalismo e do hipergradualismo que caracterizaram a atuação do governo em 2010 e no início de 2011. Aliás, a necessidade de continuidade do ciclo de alta dos juros em 2011 é resultado direto da frouxidão fiscal do ano passado e da timidez do BC que encerrou prematuramente o processo de ajuste da taxa Selic. Contribuiu também para isso a cacofonia do discurso do governo no que diz respeito à política anti-inflacionária, ora minimizando o papel dos juros no controle da demanda, ora enfatizando sua importância.

A tentação de se declarar vitória e abandonar prematuramente o campo de jogo, numa conjuntura em que os índices inflacionários estarão momentaneamente baixos, podem ser grandes para um governo que não escondeu no passado seu viés gradualista no uso de medidas macroeconômicas de controle da demanda agregada. Porém, os equívocos cometidos em 2010 não devem ser reprisados neste ano, sob pena de a inflação se manter acima da meta em 2012, o que elevaria os riscos de disseminação maior da indexação na economia, inercia lizando ainda mais a inflação e elevando os custos reais para trazê-la de volta para a meta.

Ademais, continua preocupante a situação estrutural das contas públicas que aponta para uma redução relevante do superávit primário no ano que vem. O governo tem sido bem sucedido até agora na contenção da execução orçamentária, o que muito provavelmente assegurará o cumprimento da meta de resultado primário em 2011. Lamentavelmente, a situação para 2012 se apresenta muito mais complicada, principalmente em razão da inadequada e esdrúxula regra de reajuste automático do salário-mínimo que deve elevar substancialmente a conta do pagamento de benefícios sociais e previdenciários no ano que vem. Além disso, a contenção do gasto ora em curso tem características que dificultam a repetição desta estratégia no próximo exercício. É o caso, por exemplo, do corte das despesas de investimento às vésperas da realização dos grandes eventos esportivos no Brasil.

Em suma, o momento é de completar o ajuste da economia a um ritmo de crescimento que, embora menor no curto prazo, assegure um bom desempenho macroeconômico nos próximos anos, sem incertezas e volatilidades que prejudicam a economia, principalmente no diz respeito às decisões de investimento de longo prazo.


Mande-nos uma Mensagem