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Gabriel Chalita

São Paulo/SP
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Gabriel Chalita

Advogado, Jurista, Professor, Escritor e Político. Membro do conselho diretor da Casa do Saber. Centenas de palestras no Brasil e no exterior, respeitando sempre o perfil do público a que se dirige. Seus temas prediletos são a ética, estética, amor, inteligência emocional, filosofia, educação, relações inter e intrapessoais, poder, entre outros.


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"Esperança, mesmo na adversidade"

"Esperança, mesmo na adversidade"


Apesar das adversidades, uma mensagem de esperança

Uma profissão que exige vocação e, acima de tudo, determinação. Assim pode ser definida a inclinação para o trabalho docente. No entanto, nos últimos anos, esta carreira vem sofrendo com uma série de problemas, como a desvalorização, a baixa remuneração e, até mesmo, ameaças aos professores, com a crescente violência no ambiente escolar. A seguir, confira a entrevista com o ex-secretário de educação de São Paulo, professor e membro da Academia Paulista de Letras e da União Bra­sileira de Escritores, sendo autor de 39 livros, Gabriel Chalita. O educador fala sobre os fatores que o levaram a escolher a profissão e passa uma mensagem de esperança aos docentes. Veja:

Na sua opinião, ser professor é...

Ser professor é ser formador. Ele professa a crença na pessoa humana, auxiliando no seu desenvolvimento integral: cognitivo, social e emocional. Ser professor é ser instigador. O professor, como dizia Sócrates, ajuda o conhecimento a nascer. Sócrates falava de sua mãe, que era parteira mas que não fazia a criança. A criança estava pronta - só era preciso ajudá-la a vir ao mundo. Assim é o mestre: respeita o universo do seu aluno e quer ajudá-lo a caminhar com pés próprios, a ter autonomia.

Que motivos o levaram a escolher a profissão?
Nasci professor. Gosto de aprender, gosto de ouvir, gosto de partilhar. Desde menino gosto de dar aulas. Nunca abandonei a sala de aula, mesmo na época em que fui secretário de Estado ou quando trabalhei dirigindo escolas. Sempre estive e estou na sala de aula. Essa troca de saberes é um privilégio. E gostar de ser professor é um passo importante para que a relação de ensino-aprendizagem se realize.

Como define o papel do professor hoje? O que mudou, nos últimos anos? E a relação professor-aluno, como está atualmente?

O professor hoje tem que assumir a postura do instigador, do problematizador. Precisa reinventar sua forma de atuar, porque a educação é um processo em constante transformação. Não se fala mais em professor facilitador. Em tempos de informação, essa necessidade se amplia. O aluno recebe informação de todos os lados: internet, televisão, rádio, revistas, jornais, rua etc. Cabe ao professor auxiliá-lo nesse desafio de transformar informações em conhecimento. A utilização das novas tecnologias facilita o conceito de aluno pesquisador. Entretanto, continua valendo a assertiva de que, por melhor que seja a velocidade da informação trazida pelos meios tecnológicos, o computador nunca vai substituir o professor. Computador não tem alma. O aluno precisa de alma, de vínculo, de alguém capaz de auxiliá-lo na arte de gerenciar sonhos.

Qual é a importância do professor na formação do aluno e de seu caráter?

A grande importância do professor está em cumprir o desafio de realizar a gestão das pessoas. Dentro de um universo heterogêneo, o ideal é que o professor faça com que cada aluno renda o seu melhor. E precisa fazer também com que o clima escolar seja de cooperação, não de destruição. O exemplo que o professor dá é essencial para que isso aconteça.  Todo educador deve ser educado - o professor que maltrata um colega ou um aluno está na profissão errada.

Ainda existe o profissional que pensa que está em um pedestal por ser professor ou todos estão conscientes da importância da aproximação com os alunos, que também são fontes de conhecimento?

Gostaria de acreditar que todos os professores já perceberam a importância de compreender o universo e o pensamento do aluno, para formar a mão-dupla do ensino-aprendizagem. O professor que se mantém no papel de facilitador, do sabe-tudo que entrega conhecimento como quem entrega doses de medicamentos, está errado. O certo é incentivar a análise crítica, a troca de experiências e de conhecimentos, a discussão, o problema - com as soluções. Isto é ensinar. E só ensina quem aprende. Guimarães Rosa já dizia, em Grande Sertão: Veredas, em 1946: "Mestre é quem, de repente, aprende".

Qual é a importância de ter atitudes positivas e afetivas no trabalho junto aos alunos?

A educação passa pelo afeto. Um tratamento digno aos funcionários, professores e alunos repercute de maneira positiva na relação ensino-aprendizagem. A família que se sente acolhida na escola dos filhos participa mais. E o aluno, quando percebe que a escola é dele, que suas ações podem refletir na melhoria da escola, não abandona os estudos e ajuda a transformar o ambiente escolar. A isto eu chamo de o conceito de pertencimento. Nessa evolução, é possível construir uma escola mais eficiente e mais democrática.A primeira e mais fundamental carência que me parece estar afetando o ambiente educacional hoje é a carência do respeito pelo outro. Um desvio que o aluno leva de casa, em razão de uma série de circunstâncias: formação deficiente, subemprego, bebida, violência e desesperança dos pais. Qualquer pessoa endurece ao viver situações desse nível, mas com as crianças o endurecimento é mais marcante e mais duradouro. Por isto mesmo é que a pedagogia do amor se aplica a essas pessoas, na idade de pleno processo de crescimento emocional, moral e social. Se a criança for tratada com respeito e com amor, responderá na mesma medida. Isto é uma fórmula quase matemática.

Muitas vezes, os professores, até mesmo por pressão do sistema, de ordens superiores, se tornam 'bitolados', restringindo-se a ensinar apenas conteúdos e esquecem de mostrar aos alunos uma visão crítica do mundo. O que fazer para que este talento, do pensamento crítico, não seja  distorcido ou inutilizado?

Não se pode educar de modo capenga, querendo que os alunos sejam novos repetidores de fórmulas e conceitos.  É preciso que o professor esteja capacitado para trabalhar sobre três habilidades essenciais na educação: cognitiva, social e emocional. A cognitiva é a aprendizagem que tem de ser significativa, da leitura e compreensão de textos à leitura e compreensão do mundo, passando pelas diversas áreas do conhecimento. A social trabalha em duas dimensões: o trabalho em equipe e a solidariedade. Ninguém se desenvolve sozinho e a escola tem que ajudar nesse espírito de grupo, além da percepção do que cada um pode fazer para melhorar o mundo - trata-se da pedagogia da solidariedade. A emocional refere ao fato de que nós somos emoção. Quando se pensa em futuro, em esperança, em tudo, pensa-se em emoção. Quando se caminha pela agressividade, violência, apatia, também é do universo emocional que se trata. Enfim, o afeto é a integralidade. Afeto é respeito à autonomia, ao individual e ao coletivo.

Muito se tem falado sobre a questão do 'ser educador' e do 'estar educador'. É possível dizer que o maior problema da educação no Brasil é justamente esse, pois temos pessoas envolvidas na educação que estão despreocupadas, interessadas em apenas receber o salário no final do mês? Neste caso, quais são as conseqüências deste problema?

O professor deve estar equipado com duas ferramentas essenciais: competência e amor. Se ele não estiver dotado desses dois instrumentos, a educação não acontece. Portanto, o professor que não está preparado para esse trabalho precisa fazer uma escolha: ou vai buscar capacitação ou desiste, porque nunca vai ser um bom professor. Mas não podemos ignorar que, muitas vezes, a falta de motivação pode ser culpa de uma política salarial equivocada, da ausência de oportunidades de capacitação ou de estrutura material. A valorização do magistério foi uma das prioridades da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, na minha gestão. Desenvolvemos algumas ações neste sentido, porque tenho consciência de que o professor é quem faz a escola,  professor é quem faz a educação. Fizemos concursos para contratação de mais de 100 mil novos professores, conseguimos um aumento salarial de 40% para os ativos e 25% para os inativos, e implantamos o bônus salarial de R$ 1.200,00 até R$ 10.000. Como resultado, em nossa gestão, durante o governo Geraldo Alckmin, não houve uma greve sequer. Mas cuidamos também de outras iniciativas importantes, como a capacitação e a formação continuada.

Assistimos, a cada dia, o interesse pela profissão de docente cair. Vários motivos, como violência na escolas, a desvalorização dos profissionais e os baixos salários, são responsáveis por esta situação. O que fazer para reverter este quadro e incentivar os jovens a buscarem a carreira?

São necessárias algumas iniciativas para que possamos avançar em relação à valorização dos educadores no país, o que só se dará com a elevação do nível de qualidade da educação. Valorizar o professor é fundamental, porque ele é a alma, o pilar da educação; com o professor motivado e reconhecido, todo o processo fica mais fácil. Em paralelo, deve-se obter a participação da família na escola: pais, parentes, amigos, vizinhos, todos participando da escola, levam à edificação de um sentimento a que chamo de pertencimento, passando a tratar a escola como símbolo da própria comunidade. Isto reduz significativamente a violência nas escolas e em seus arredores - como comprovou a própria Unesco, quando analisou o programa Escola da Família, que mantém as escolas estaduais abertas aos fins de semana, oferecendo para alunos e pessoas das comunidades atividades de lazer, artes, esportes, saúde e geração de renda. Também é necessário construir uma escola em que o currículo seja mais contextualizado, adequado às necessidades do momento histórico, social, econômico e de mercado por que passa o Brasil e o mundo. Uma das questões centrais das políticas públicas de educação é o financiamento da educação básica. Há um enorme esforço de governos estaduais e municipais para a melhoria da qualidade de ensino. Entretanto, é urgente a participação do governo federal, porque, por mais que exista vontade política, nenhum governador ou prefeito consegue dar um salário digno ao magistério. E o professor, alma da educação, precisa ser valorizado em três lugares: cabeça, coração e bolso. Cabeça é conhecimento, capacitação; coração é atenção, respeito; e bolso, salário digno.

Geralmente, quando o aluno vai mal na escola, culpa-se o professor. Qual é, efetivamente, a parcela de culpa do professor neste processo?

Quero usar como resposta, uma ilustração. Um menino que vive nos sertões, que nunca viu um piano nem nunca ouviu uma sonata tocada ao piano, dificilmente poderá descobrir se tem ou não talento para ser um pianista. A única forma de permitir que ele faça a sua escolha é dar a ele a oportunidade de ver o mundo. Por isso mesmo é importante que haja um programa contínuo de levar as crianças a museus, teatros, cinemas, shows, espetáculos folclóricos, circos etc. E ao professor cabe a tarefa de, sempre que possível, levar esses assuntos para debate em sala, despertando o sonho. Professor é aquela pessoa que lapida diamantes.

Quanto à formação dos professores, o que falta, hoje?

Na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo conseguimos um avanço financeiro para todos os professores, mas demos mais do que dinheiro. Os professores tinham programas de visitas orientadas a museus e teatros, de graça. Tinham programas de intercâmbio em outros estados e até em outros países, por meio de parcerias com a iniciativa privada. Tinham crédito para compra de computadores pessoais - o Programa de Inclusão Digital, por meio de parceria entre a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo e o Banco Nossa Caixa, desenvolveu uma linha de financiamento para facilitar a compra de computadores para os docentes. E tinham democracia, como por exemplo na forma que idealizamos para discutir grade curricular, retorno das disciplinas de Sociologia, Artes e Filosofia ao currículo estadual: todos os professores foram ouvidos, sempre respeitada a posição da maioria. Mas o fundamental é que os governos não interrompam ou descontinuem programas iniciados anteriormente, simplesmente porque são programas de outros governos.

E a formação continuada, os docentes estão conscientes de sua importância?

Como todo o processo educacional, a conscientização ocorre gradativamente. No que se refere às capacitações, muitos projetos foram desenvolvidos durante a nossa gestão na Secretaria de Estado da Educação, para que toda a classe docente pudesse ser contemplada, desde os efetivos até os não efetivos, assim como os professores que lecionam nas mais diversas áreas do conhecimento e modalidades de ensino.O Programa de Educação Continuada (PEC) possibilitou a conclusão do nível superior para os professores que tinham apenas o magistério. Isso aconteceu em 2002, quando a intenção foi nos anteciparmos à Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDB), que previa essa necessidade até este ano. O Bolsa Mestrado e Doutorado, em que professores têm o pagamento integral da sua pós-graduação stricto sensu, além de dispensa de algumas horas por mês para dedicação aos estudos, o programa de intercâmbio cultural que levou centenas de professores para conhecer sistemas pedagógicos de outros países, como a Espanha, a Inglaterra, Portugal e Estados Unidos, numa oportunidade de experiência internacional que só beneficiou os alunos e a comunidade escolar onde esses professores atuam, além de outros programas consolidados como o Teia do Saber, Rede do Saber, Canal do Saber e o Letra e Vida. Entre 2002 e 2006 foi feito um investimento de mais de R$ 800 milhões em capacitação de professores, em modalidades variadas.Apoiar a capacitação dos professores é importantíssimo, mas concordo que é necessário dar a ele o mesmo que consideramos ser essencial para os alunos: atenção e respeito.

Que mensagem o sr. gostaria de deixar neste Dia do Professor?

Gostaria de deixar uma mensagem para os educadores anônimos, aqueles que nunca são lembrados e que se multiplicam por esse país, dando o que têm de melhor para construir uma relação de aprendizagem significativa. Aqueles que madrugam para chegar a lugares distantes, aqueles que não perdem a ternura, apesar das pedras que teimam em surgir no meio do caminho.

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